Nunca é de mais: Jiffer MC, Uncle Jay e o rap como exercício de persistência
Em «Nunca É de Mais», Jiffer MC transforma a luta diária em motivação e encontra em Uncle Jay mais do que um colaborador: uma ponte entre gerações e uma relação de mentoria.
Por Redacção RAP ARTE

Nesta história · 9 secções
Há uma ideia que atravessa quase toda a conversa com Jiffer MC: continuar. Continuar quando os recursos são poucos, quando as oportunidades não aparecem e quando a vida obriga a encontrar outras formas de avançar. É dessa insistência que nasce «Nunca É de Mais», faixa de «O Cotidiano», projecto colaborativo de Jiffer MC e Uncle Jay.
Para Jiffer, «O Cotidiano» é também um encontro entre duas gerações do rap angolano. O rapper descreve o projecto como uma tentativa de harmonizar uma musicalidade mais actual com uma era que considera fundamental para o desenvolvimento do hip-hop nacional — uma geração representada por nomes como Uncle Jay e que, na sua leitura, nem sempre recebe o espaço devido nas tendências actuais.
É uma mistura de duas gerações.
Um convite depois do palco
A colaboração nasceu num ambiente de rap. Depois de uma performance de Jiffer MC no Bar Django, Uncle Jay aproximou-se e fez-lhe o convite para trabalharem juntos. Jiffer recorda esse gesto como uma tentativa de contribuir para aquilo que chama de arte feita no anonimato: trabalho que existe e se desenvolve mesmo sem beneficiar da maior exposição do mercado.
A opção por um projecto colaborativo, e não apenas por participações pontuais, tinha também uma intenção de unidade. Jiffer sublinha que Uncle Jay nunca tratou a mistura entre old school e new school como competição.
Ele não encara a mistura de old e new como uma competição, mas sim como uma forma de transbordar arte e mostrar que ela não tem idade nem barreira.
Um álbum sobre nós
Embora a motivação seja uma constante no trabalho de Jiffer MC, «O Cotidiano» desloca o centro da narrativa. Segundo o rapper, este projecto não é principalmente sobre a sua experiência individual. É sobre um «nós» mais amplo: pessoas que procuram oportunidades, enfrentam instabilidade e encontram formas de se manter num contexto em que a sobrevivência diária exige persistência.
Este projecto não é muito sobre mim. É sobre nós.
A visão por trás do álbum parte precisamente das dificuldades do dia-a-dia. Jiffer fala da instabilidade do país, da escassez de oportunidades e da luta constante de muitos angolanos para se manterem. É neste enquadramento que «Nunca É de Mais» ganha o seu peso.
Só fica tarde quando decidimos que ficou tarde
Para Jiffer, o próprio título contém a mensagem da música. A ideia é que só se torna tarde quando a pessoa decide que já não vale a pena continuar. Como o rapper identifica a sua marca artística com o rap motivacional, «Nunca É de Mais» funciona também como uma espécie de assinatura do seu percurso.
A mensagem por trás disso é nunca desistir daquilo em que a gente acredita.
Mas a mensagem não se resume a acreditar. Há uma segunda parte importante: respeitar o processo e não tentar correr contra o tempo. A inspiração veio também da própria história de Jiffer no rap e da realidade de pessoas que continuam a trabalhar e a procurar alternativas apesar das dificuldades.
O rapper usa uma imagem concreta para explicar essa realidade: o angolano disposto a zungar qualquer coisa e que, mesmo assim, continua a acreditar no amanhã. É nesse contraste entre dificuldade presente e esperança futura que a faixa encontra o seu centro.
Primeiro veio o beat
O conceito de «O Cotidiano» não existia antes das músicas. Uncle Jay enviou os beats, Jiffer escreveu ao longo de aproximadamente uma semana e o álbum foi gravado em quatro dias. Só depois de as músicas estarem criadas perceberam que as letras partilhavam um mesmo território: o quotidiano.
Em vez de escrever para preencher um conceito previamente definido, o conceito nasceu da observação daquilo que já tinham criado. Jiffer descreve a dinâmica de estúdio como prática, mas reconhece também a responsabilidade que sentiu ao trabalhar com Uncle Jay, Jay Lourenzo e Killa O.
A dificuldade nem sempre é o ponto final
Durante a escrita de «Nunca É de Mais», Jiffer diz ter estado num estado particularmente reflexivo. Pensava em como expandir a própria arte, fazer coisas diferentes e criar impacto positivo em quem o escuta.
A resposta voltou à mesma ideia que atravessa o projecto: mostrar que dificuldades e atrocidades não precisam de representar o ponto final. É também nesse sentido que o rapper define consistência.
Consistência para mim é estar vivo, continuando a fazer aquilo que te mantém vivo, independentemente de qualquer barreira.
Um vídeo simples para deixar a música à frente
O videoclipe de «Nunca É de Mais» adopta uma abordagem minimalista e centrada na performance. Jiffer explica que a decisão foi intencional e também condicionada pela realidade dos recursos disponíveis. Em vez de tentar esconder essa limitação, a equipa privilegiou a presença dos artistas e a ligação directa com a música.
Segundo Jiffer, Pessimista e a sua equipa conseguiram materializar a expectativa visual do projecto. O resultado mantém o foco na interpretação e deixa a mensagem da faixa ocupar o primeiro plano.
Uncle Jay como produtor, MC e mentor
A relação entre Jiffer e Uncle Jay ultrapassou rapidamente uma simples colaboração de estúdio. Para Jiffer, trabalhar com o veterano trouxe aprendizagem artística, técnica e profissional.
Ele tem-me ensinado muito nesta jornada.
Quando lhe é pedido que descreva trabalhar com Uncle Jay numa palavra, Jiffer escolhe «mentoria». Diz querer preservar esta ligação a longo prazo e resume a posição que assume perante o veterano de forma directa: «Serei sempre seu puto.»
Rap motivacional sem ignorar a realidade
Quando Jiffer diz querer que as pessoas saiam de «Nunca É de Mais» motivadas, isso não significa ignorar aquilo que está mal. A própria construção de «O Cotidiano» depende de reconhecer a dificuldade. A diferença está na resposta que se escolhe perante ela.
Quero que as pessoas sintam que precisam lutar e não declarar a derrota só porque tudo parece não dar certo.
A música dirige-se tanto a quem continua motivado como a quem precisa voltar a acreditar. A proposta não é prometer facilidade, mas defender possibilidade: sonhar, lutar, respeitar o próprio tempo e continuar a trabalhar em direcção a um objectivo.
Quando lhe pedimos uma palavra para definir «O Cotidiano», Jiffer escolhe «persistência». Para «Nunca É de Mais», escolhe «liberdade». E, quando precisa resumir aquilo que gostaria que alguém a descobrir o projecto pela primeira vez retirasse dele, regressa ao princípio de tudo.
A vida não é fácil quando não acreditas em ti.
Ficha RAP ARTE
Artistas: Jiffer MC & Uncle Jay. Música: «Nunca É de Mais». Projecto: «O Cotidiano». Ano: 2025. Álbum com nove faixas, editado pela Sport Billy Produções. Realização visual mencionada por Jiffer: Pessimista e equipa. Palavra de Jiffer para o projecto: persistência. Palavra para a música: liberdade. Jiffer sobre trabalhar com Uncle Jay: mentoria.
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